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CONVERSA PARA UM ESPELHO

Tenho andado resignado.
Meu bestiário tem se contentado
Com apenas poucas feras.
Há um riso (manco),
Um infinito pela janela.

Um olhar tão mais breve
Cai sobre as coisas.
É chegado um tempo.
Uma hora.
Vontade.

Das aldeias do mundo,
Não chegam mais telegramas.
As crianças sabem.
As crianças não sabem.
As crianças são!

Tem muitos anos,
O muro de Berlim caiu
(Aquela moça do jornal...
Nem é mais moça).

Morreu Carlos Drummond de Andrade!
Morreu, inclusive, a Morte...

DORA MOON

Com mãos para o mundo, andávamos calados.
Os lábios já, de nós, gaguejavam a sede antiga:
Tínhamos vida, Dora Moon, e a primavera não morria.
Bastávamos e respirávamos algum lugar de nossa fuga.
Tínhamos pele, eu levava alguns mortos,
Junto, entre, um par furado de velhos sapatos.
Ah! também um desejo dos olhos nos olhos teus.

)Feiuras e risos deliquenciais, numa antiga esquina de nossa memória(
Nossa filosofia era o desejo, e tu me estendias os braços
Quando eu pregava no teu sono a nervura daquelas asas.

ERA ISSO

PANO MOFADO

Agora, no meu coração, queima Dora.
Com sua magreza de pulso extremado.
Ontem os mares pareciam perdidos.
Ian e a rua: dois rumando para o nada.
Pasteis chineses e breves curativos
(A minha presença não trouxe nada).
Mas agora Dora queima em meu peito:
Todas as angústias serão inventadas!

POÉTICA NOVA

Nas margens do São Francisco
Eu nunca estive, e tão calado
Perscrutando o céu arisco
Que ao meu sonho foi vetado

Só a fineza tosca do concreto
É que me deu matéria aos olhos
Nenhum Chico curvou-se-me perto
À humana natureza dos meus poros

Vastidão esparsa eis o que me sobra
Não de acúmulo apreensivo,
Mas daquilo que me não toca...

Quanto as margens do velho Chico
Deixo-as ao serpear de suas cobras.
Só isso me basta: sou o que me tocas...

SONETO DE ARLEQUIM

Com as veias sensíveis do meu corpo
Estendidas feito mãos de condenado,
Tão afiado na condição do meu estojo,
Expulso versos para fora do cercado.

São versos feitos de raízes e serenos,
Em que homens encantados de platô,
Na acústica matinal destes venenos,
Expeliram da minh'alma o pierrot.

São versos feitos de sarjetas e luares...
Mas eis que na profícua solidão dos bares,
Onde boêmios prescrevem suas mazelas;

Eis que de faíscas e quermesses medulares
A bruta imagem destes versos singulares
Desfaz-se ao pólen feminil de tuas telas!

QUANDO ERA NOITE

Quando pela noite me estourava algum spleen
E fantasmas aguçados martelavam a galope
O brotar quase invisível duma coisa carmesim;
Como ao mar da sombra a luz perde seu toque

Para vestir de nudez a rua onde pifou o holofote...
Onde a febre maculosa maculou de necrológio,
Novembro, as tuas flores debutadas neste ódio.
Agora, nestes versos em que tento a tua morte,

Nenhum janeiro habita o triste galho que verguei!
E porque deste meu manto fez-se o pó do teu escombro
Em que na palidez convulsiva nem ciranda eu encontro.

Porque não tenho vontades de mirar o que não sei,

SERENDIPITE

Sol chato na face. Uma tarde em nós.
Nenhuma promessa a ser cumprida
como o alívio da vida que escolhemos.
O dia para nós, naquela conversa
em que tentávamos mirar alguma sombra,
quem sabe?, de um pensamento, descrevia
em nossas órbitas um velho desejo de homem.

E quando sentíamos solidão
era exatamente estarmos suspensos
pelas cordas sem lei de algum instrumento
que mal tocamos e que hoje, sabemos, jaz esquecido,
sem possibilidade sequer de uma corda,
mais a poeira de passados e pessoas que atravessamos
e um uivo suprimido de alguma nossa expressão.

POETA

Sou a substância que nunca existiu
Éter lumnífero da luz que falhou
Essência rude em que se fez o verso
Mas que do peito nunca saiu

Suspiro da boca que me não falava
Posto ao lençol da velha cama
Onde imagem, cor, dor e lama
Se precipitaram numa mesma voz

Túmulo derradeiro das noites de vinho
Amante suicida cuja visão aferra
Mais que a negra flor na verde relva

Posto no fundo menos que no raso
Sou o tempo que gira fora do prazo
O caminho da estrada sob meus pés...

PARECENÇA

Conheço-te da brisa.
Do sereno oblíquo da manhã.
Conheço-te da vida,
Te conheço porque conheço não

Por terdes dedos de apontar estrelas
E pés de riscar o chão
Por isso eu te conheço:
A tarde deita em nós

Um jeito seu. O tempo continua.
As águas serpeiam no ventre do rio;
Homens vagueiam, no cerne, o nada.
Por isso eu te conheço

- Que de tão estranha lembras
um nome que tive -
Posto que sejas natureza
Por isso eu te conheço

Por possuirdes em teus traços
A fauna das velhas auroras,
Os lírios todos do campo,
Os molares dos teus filhos e netos.

CARTA

Lágrimas... Sangue de minh’alma nunca antes tão alegre. Nunca assim antes tão sofrida...
Amor, hoje o dia nasceu tão frio, mas nem assim eu senti a vida parar, mesmo fora da possibilidade do meu coração, o coração teu batia o meu, pelo dom do teu amor que me fez em paz. Meu bem, hoje eu acordei. Ia, meu coração até podia pulsar. Como todo homem que ama, senti meu peito estender-se em motivo do sopro que a vida da amada fez dele o desejo.