Com mãos para o mundo, andávamos calados.
Os lábios já, de nós, gaguejavam a sede antiga:
Tínhamos vida, Dora Moon, e a primavera não morria.
Bastávamos e respirávamos algum lugar de nossa fuga.
Tínhamos pele, eu levava alguns mortos,
Junto, entre, um par furado de velhos sapatos.
Ah! também um desejo dos olhos nos olhos teus.
)Feiuras e risos deliquenciais, numa antiga esquina de nossa memória(
Nossa filosofia era o desejo, e tu me estendias os braços
Quando eu pregava no teu sono a nervura daquelas asas.
Agora, no meu coração, queima Dora.
Com sua magreza de pulso extremado.
Ontem os mares pareciam perdidos.
Ian e a rua: dois rumando para o nada.
Pasteis chineses e breves curativos
(A minha presença não trouxe nada).
Mas agora Dora queima em meu peito:
Todas as angústias serão inventadas!
Quando pela noite me estourava algum spleen
E fantasmas aguçados martelavam a galope
O brotar quase invisível duma coisa carmesim;
Como ao mar da sombra a luz perde seu toque
Para vestir de nudez a rua onde pifou o holofote...
Onde a febre maculosa maculou de necrológio,
Novembro, as tuas flores debutadas neste ódio.
Agora, nestes versos em que tento a tua morte,
Nenhum janeiro habita o triste galho que verguei!
E porque deste meu manto fez-se o pó do teu escombro
Em que na palidez convulsiva nem ciranda eu encontro.
Sol chato na face. Uma tarde em nós.
Nenhuma promessa a ser cumprida
como o alívio da vida que escolhemos.
O dia para nós, naquela conversa
em que tentávamos mirar alguma sombra,
quem sabe?, de um pensamento, descrevia
em nossas órbitas um velho desejo de homem.
E quando sentíamos solidão
era exatamente estarmos suspensos
pelas cordas sem lei de algum instrumento
que mal tocamos e que hoje, sabemos, jaz esquecido,
sem possibilidade sequer de uma corda,
mais a poeira de passados e pessoas que atravessamos
e um uivo suprimido de alguma nossa expressão.
Lágrimas... Sangue de minh’alma nunca antes tão alegre. Nunca assim antes tão sofrida...
Amor, hoje o dia nasceu tão frio, mas nem assim eu senti a vida parar, mesmo fora da possibilidade do meu coração, o coração teu batia o meu, pelo dom do teu amor que me fez em paz. Meu bem, hoje eu acordei. Ia, meu coração até podia pulsar. Como todo homem que ama, senti meu peito estender-se em motivo do sopro que a vida da amada fez dele o desejo.
Como fosse aquele retrato todo o tempo que passamos juntos
E inda a expressão mais viva da amizade que te guardo
Como dois estranhos caminhos que se cruzam
No caminhar de outros pés pela vez derradeira na vida
E porque todos os caminhos são breves em todas as vidas
Talvez por isto ou por qualquer motivo outro que se desconheça,
Talvez por isto te tenha em mim, secretamente, na falta que te tem teus amores,
E que, ao te ter, te possa encontrar dentre todos os afetos e envolver-te a ti minha fictícia
Melancolia...
Sempre tivemos terríveis problemas
De incompatibilidade, a matemática e eu.
E digo-lhes que nunca em minha vida achei-me
Em culpa ou em divida. A matemática é que sempre
Perseguiu-me com suas minimalidades e seus estados
De humor cáusticos. Sempre reclamando, subtraindo sempre,
Ora dali, ora daqui, qualquer causa que, em mim, lhe fizesse absoluta.
Será que não entende que sou poeta, que ocorro à margem do numeral, e se
Sou quem sou é que do amor não me fiz ausente?!
Ah! Nunca hei de engolir o numeral. Prefiro é ficar aqui com meus versos, daí então,
Tenho passado exato
nas ruas dessa cidade.
Um ano e meio.
Penso que nunca esteve claro
o que posso mastigar em ti, Vitória da Conquista...
O verde tornou-se-me aguado.
Enxovalhos me são dados ao
pescoço tenso; e a angústia que tive de tudo
me levou os planos da face
Até meus pés que andavam
de asas abertas - suspeitos de tocar outrora
o céu - vagueiam famintos tal pobre criança
perdida em dias de feira
Sob a fonte lisa o homem que se me ergue
- Sim! Para tocar o chão e ranger sob
os pés a farofa de pedras - se depara com
a feiura de um moço que pergunta:
Quando eu me for embora, Maria, não
Te tranques em teu coração,
Nem te bastes às minhas promessas.
Tampouco te bastes nesta dor de paixão.
Quando eu me for, Maria, embora
Deixar-te-ei os dias, deixar-te-ei auroras
Por isto, meu amor, Maria, não te tranques
Em teu coração quando enfim chegar-me a hora...
Lembra-te só das coisas miúdas
(Quão triste foi a lua deste nosso amor)
Verás então – não menos absurdas –
Pequenas contas de fé que em ti este poeta regou
Lembra-te apenas das tardes serenas,
Dos beijos e risos, das noites em flor
Saberás então – em dores amenas –
Há a morte como coisa que eu quisesse, tal é para mim o absurdo de me ir pouco mais a cada manhã, qual o trago que toca-me a libido, qual o xadrez que devora-me a rainha. Há a solidão no solstício que me vai tocar de novo e de novo – uma vez mais a cada manhã. Há solidão que me é o perigo, e ao estar-me só eu desenho versos como coisas de que nem sei o nome.
Quanta calma carregas no olhar
Foi-se o tempo da dor materna
Restou-te de tudo a amena
A imensa face da rosa não colhida
Que seria a esse mundo então,
Onde coisas perdem o rumo, apenas
Uma triste rosa não colhida
Mas te sentas como faz uma criança
- É quando quase te escapole o riso -
E resta uma esperança na face tua
Que muitos outros chamariam de abrigo
E o teu peito está aberto, assim também
Está a tua alma e a mão tua de cristo
Espalmada. E eu, amada, me pergunto
Quantas rosas colhi ao vago da estrada
Antes de saber que foste tu a rosa escolhida...
Escrevi um verso,
Um verso pesado
Vindo de mim,
De dentro de mim
- Acidente de mim -,
E bebi um pouco d´água
Escrevi um verso para ser em mim
Como fôra teu cantar
De canto sozinho,
E tento lembrar
Moça que fica, teime sozinha
Que um trem já te vai passar
Que o meu verso - o meu carinho -
Não é assim de hora em hora
(É sempre noturno meu versejar...)
Olhos de coruja e o meu versinho
São assim como vizinhos
Que não se sabem encontrar
Mas que vivem o mesmo tempo,
Bebem da mesma sede
E se afogam no mesmo bar
Moça que fica e teima sozinha
Sossega que já te vem passar
Ontem veio a síncope - Palmo olhar gasto
Dalguma velha hora. E era tudo que queria
A noite que, fria, esqueceu-se em retrato.
Homens circulavam pela dor que me erguia
Outra coroa de dez mil homens sepultados!
Era vasta a hora de outro mesmo vasto dia
Em que esposas e maridos, por fios costurados,
Escondiam da pele minha um riso que não se ria
Tudo me era. E eu, em tudo, uma voz preclara
Que se estendia por entre vazios agudos.
E a imensa bobeira de esticar a face, dura e rara,
Para além da imensa janela - em que sisudos
Postes iluminavam, dos flagelos, a triste cama -
Poeta assim como eu. Mas que com seus acordes derramas muito mais que um poema:
Cada dedo teu, irmão, é um canário amarrado ao fio de liberdade das cordas deste um teu violão.
E tu mesmo sabes destes teus anseios. Sabes tu da natureza que canta em ti assim como canta no crepitar das copas das árvores e ruflar de asas de algum teu semelhante...
E eu sei da vida de meus poemas, meu poeta, que é deitada ao chão feito semente de sangue, e digo, das coisas dessa minha acontecência, que és - tu e teus acordes - o barco de expressividade de algum meu poema.
Tenho esse nome Caio para matar o meu Thiago. Sim, de vez que a arte é antes exercício de generosidade, e o poeta, que tantas vezes se engana, precisa se alimentar de vários nomes.
Sim, porque nenhum poema é de fato seu, e a escrita, esse ato de egoísmo, padece (e deve) na generosidade da estrofe parida.
O que vejo em ti, caro poeta, não tem sequer inda o nome.
A palavra tua escorre e estronda como o grito último da natureza;
e eis que me pergunto, que inquieto, que percorro: "ora, meu caro poeta,
com qual fluidez atinges o morro?" De certo que minha pele - onde é que possuo a ínfima
parte dalguma certeza - fermentou o gozo das cousas mais pulsantes, de certo, meu poeta, que
as cousas que inexistem existirão sob a branca negra cor da sombra deste teu alforje.
Mas tu estás nos teus dias, rapaz, e, nos teus dias, minutos e horas são matérias do presente,
Escuta, moça, o meu coração, que ele não é feito assim de suas palavras. Ouça bem. Ele pulsa, mas não é para dizer que o seu não pulse, nem que expulsa o seu coração. É que ele obedece o ritmo próprio de um coração que é dele: o coração do meu coração... E ele se deu em amizade,
e nunca que quis outro que não o seu. Pobre músculo cardíaco, quem de duas palavrinhas, por mal entendimento, passou-se a ter por nome um palavrão.
Há, às vezes, nesses dias chuvosos, uma espécie de mal-estar. Acontece. Esperar torna-se um vício. Nada toca. Nada se deixa tocar. De perceptível só o som da combustão de carros a motor que se chega sempre à porta, nesses dias chuvosos.A verdade é que a vida parou como um romance que perdera o enredo, e os esforças limitam-se ao ato de negar, não existe, pois, a possibilidade, nesses dias chuvosos. Tudo é tratado como estranho; Ouço vozes no cômodo ao lado: essas não me querem dizer nada. A vida parou. Por um instante tive a mesma impressão...
Há a morte como coisa que eu quisesse, tal é para mim o absurdo de me ir pouco mais a cada manhã, qual o trago que toca-me a libido, qual o xadrez que devora-me a rainha. Há a solidão no solstício que me vai tocar de novo e de novo – uma vez mais a cada manhã. Há solidão que me é o perigo, e ao estar-me só eu desenho versos como coisas de que nem sei o nome.
Se te lambes o próprio dedo
É que também te podes desejar,
E o veneno que é teu, Capitú,
Que é em tu o teu lugar,
Tem o gosto de Judas.
Alimento do beijo que te vai matar.
És tu que não me sabes o nome.
Eu que me vou tão jovem,
Eu que nunca em mim me
Soube estar... Eu não tenho torpor,
Eu não quero torpor, não possuo,
Nem me quero, doravante, enganar
Não me compare, pois, aos Padres que
Te cheiram o assento, tampouco
Me diga por sob o choro surdo dos crentes!
Não sabes tu, Capitú, que teus pobres
E cegos espinhos mal me servem aos dentes?!
Meu estrangeiro português
Era a coisa que escrevi vez mais
E veio de um livro que roubei
Vivendo do amigo que inventei
Lá fora quando voltei de um lugar
Se era bom? Não, eu nem sei
Me foi escrevendo sem pensar
Daí a abrir a caixa de sapatos,
Com um daqueles livros que comi,
Foi-se embora correndo me enforcar
Meu estrangeiro português
Não sabe o nome que tem seu filho
Ou se é dor o que vem sentido
Ou se é vida o que morre em trilhos
Ou se é vontade sua de abraçar
Ou se é algo como causa morta
Ou se é algo que lhe embota
Ou se é algo como um olhar
Itajaina... porque és diferente das demais itajaienses
Itajaiana sim, porque meu coração virou teu nome
E todas que passam e todos e nomes e “enses”...
O sal do mar do porto que virou-me a fome
É esse desejo de estar, como outros catarinenses,
No mar de amor da alma de suas itajaienses
Essa vontade imensa de avistar o porto
E deixar-me estar no lar do teu corpo
No teu corpo Itajaiano me fazer diferente
Em querer da vida candura apenas
Que me torne abrigo do litoral catarinense
E que torne a mim o teu amor natal
Para que retornes mesmo nas noites serenas
Estaríamos onde é nosso lugar
Astros fluidos no transtornado céu
Que a manhã de nós seria outra
Infinitamente no olhar
Não, o silêncio não nos tocaria
Senão num breve fitar de olhos
Porque fomos feitos de cumplicidade
Somos terra e flor - tu és a flor que
Rompe o chão do meu peito
E se eleva ao mundo
Sem tu eu não teria sentido
Senão o de comer os grãos de morte
Desse lugar de gente e bicho e coisa
Quero-te sempre, amor
E não existe crise que me possa tirar de ti
Sempre terás braços e olhares meus
De lua, sempre terás deste homem o riso claro do leite
Nada lhe direi dos espinhos e das sedas.
Nada ficará de palavra em minha boca.
Apenas dou-me, à ânsia, o cigarro e as presas
Queimando-lhe a vertigem alma barroca
De você hei de guardar o último silenciar,
A última culpa do seu corpo desnudo
Derramada ao meu, em breve órbita lunar,
E hei de espalhar-lhe ao vento em ludo.
Como fiz às putas feias de minha outra casa
– Só aí há de vir o ódio seu em brasa
A entregar-me outra vez mais o seu amor – ,
Hei ainda de lhe consumir a última hóstia de cor
E ver-lhe-ei beber da minha sede o tumor
Rígido em nossos cegados corações
Poeminho, onde estás?
Aqui sob essa grama?
Quem sabe?, enfim no meu lugar
Não me deixes, então... Tão carecido de ti,
Meu infante poeminho, que até a minguante lua
Urina dor em meu caminho
Mas aí ouvir dizer que foste
Então um passarinho, causou-me inda remorso
Meu pequeno, meu estranho poeminho
Chamado como faz o só,
Rompendo, em última instância, o falso
Senhorio, deixou-me antes o poeta,
O poeta em teu caminho...