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Edgard

Tudos

PANO MOFADO

Agora, no meu coração, queima Dora.
Com sua magreza de pulso extremado.
Ontem os mares pareciam perdidos.
Ian e a rua: dois rumando para o nada.
Pasteis chineses e breves curativos
(A minha presença não trouxe nada).
Mas agora Dora queima em meu peito:
Todas as angústias serão inventadas!

SONETO DE ARLEQUIM

Com as veias sensíveis do meu corpo
Estendidas feito mãos de condenado,
Tão afiado na condição do meu estojo,
Expulso versos para fora do cercado.

São versos feitos de raízes e serenos,
Em que homens encantados de platô,
Na acústica matinal destes venenos,
Expeliram da minh'alma o pierrot.

São versos feitos de sarjetas e luares...
Mas eis que na profícua solidão dos bares,
Onde boêmios prescrevem suas mazelas;

Eis que de faíscas e quermesses medulares
A bruta imagem destes versos singulares
Desfaz-se ao pólen feminil de tuas telas!

POEMA DO AMOR NO TEMPO

Quanta calma carregas no olhar
Foi-se o tempo da dor materna
Restou-te de tudo a amena
A imensa face da rosa não colhida

Que seria a esse mundo então,
Onde coisas perdem o rumo, apenas
Uma triste rosa não colhida
Mas te sentas como faz uma criança

- É quando quase te escapole o riso -
E resta uma esperança na face tua
Que muitos outros chamariam de abrigo
E o teu peito está aberto, assim também

Está a tua alma e a mão tua de cristo
Espalmada. E eu, amada, me pergunto
Quantas rosas colhi ao vago da estrada
Antes de saber que foste tu a rosa escolhida...

O RIO

Minerva, um doce nome para uma mulher. E sabia Marivaldo que sua vida não mais seria a mesma. Ele que naquele dia saíra de casa carregado de todas as aflições possíveis, soube, naquela hora, no segundo exato da ocorrência, que sua vida estava para mudar num breve espasmo de alegria.