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Punhalada

PANO MOFADO

Agora, no meu coração, queima Dora.
Com sua magreza de pulso extremado.
Ontem os mares pareciam perdidos.
Ian e a rua: dois rumando para o nada.
Pasteis chineses e breves curativos
(A minha presença não trouxe nada).
Mas agora Dora queima em meu peito:
Todas as angústias serão inventadas!

MÁGICA

I

Dulce perguntou-me que tipo de poema era o meu.
Dulce nunca me soube entender. Ela num quis.
Eu disse que era mágico; suave como um triz,
Mas ela não entendeu. Daí nem sei bem o que se deu.
Dulce disse que, se mágico, não poderia ser meu
E disse que se fosse para ela jamais entenderia
´´Poeta escreve livros só depois é que vem a poesia``
Por isso é que eu acho que a Dulce nunca viveu

Como é que alguém pode falar uma coisa dessas
Imagina se eu carecesse dessa aprovação
De certo seria um poeta a menos neste mundo
E o mundo anda tão carecido dessas brechas

HAVER DE UM QUERER

Há a morte como coisa que eu quisesse, tal é para mim o absurdo de me ir pouco mais a cada manhã, qual o trago que toca-me a libido, qual o xadrez que devora-me a rainha. Há a solidão no solstício que me vai tocar de novo e de novo – uma vez mais a cada manhã. Há solidão que me é o perigo, e ao estar-me só eu desenho versos como coisas de que nem sei o nome.

O RIO

Minerva, um doce nome para uma mulher. E sabia Marivaldo que sua vida não mais seria a mesma. Ele que naquele dia saíra de casa carregado de todas as aflições possíveis, soube, naquela hora, no segundo exato da ocorrência, que sua vida estava para mudar num breve espasmo de alegria.