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Poesia

PANO MOFADO

Agora, no meu coração, queima Dora.
Com sua magreza de pulso extremado.
Ontem os mares pareciam perdidos.
Ian e a rua: dois rumando para o nada.
Pasteis chineses e breves curativos
(A minha presença não trouxe nada).
Mas agora Dora queima em meu peito:
Todas as angústias serão inventadas!

POÉTICA NOVA

Nas margens do São Francisco
Eu nunca estive, e tão calado
Perscrutando o céu arisco
Que ao meu sonho foi vetado

Só a fineza tosca do concreto
É que me deu matéria aos olhos
Nenhum Chico curvou-se-me perto
À humana natureza dos meus poros

Vastidão esparsa eis o que me sobra
Não de acúmulo apreensivo,
Mas daquilo que me não toca...

Quanto as margens do velho Chico
Deixo-as ao serpear de suas cobras.
Só isso me basta: sou o que me tocas...

SONETO DE ARLEQUIM

Com as veias sensíveis do meu corpo
Estendidas feito mãos de condenado,
Tão afiado na condição do meu estojo,
Expulso versos para fora do cercado.

São versos feitos de raízes e serenos,
Em que homens encantados de platô,
Na acústica matinal destes venenos,
Expeliram da minh'alma o pierrot.

São versos feitos de sarjetas e luares...
Mas eis que na profícua solidão dos bares,
Onde boêmios prescrevem suas mazelas;

Eis que de faíscas e quermesses medulares
A bruta imagem destes versos singulares
Desfaz-se ao pólen feminil de tuas telas!

SERENDIPITE

Sol chato na face. Uma tarde em nós.
Nenhuma promessa a ser cumprida
como o alívio da vida que escolhemos.
O dia para nós, naquela conversa
em que tentávamos mirar alguma sombra,
quem sabe?, de um pensamento, descrevia
em nossas órbitas um velho desejo de homem.

E quando sentíamos solidão
era exatamente estarmos suspensos
pelas cordas sem lei de algum instrumento
que mal tocamos e que hoje, sabemos, jaz esquecido,
sem possibilidade sequer de uma corda,
mais a poeira de passados e pessoas que atravessamos
e um uivo suprimido de alguma nossa expressão.