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Poeminho

POEMA DO AMOR NO TEMPO

Quanta calma carregas no olhar
Foi-se o tempo da dor materna
Restou-te de tudo a amena
A imensa face da rosa não colhida

Que seria a esse mundo então,
Onde coisas perdem o rumo, apenas
Uma triste rosa não colhida
Mas te sentas como faz uma criança

- É quando quase te escapole o riso -
E resta uma esperança na face tua
Que muitos outros chamariam de abrigo
E o teu peito está aberto, assim também

Está a tua alma e a mão tua de cristo
Espalmada. E eu, amada, me pergunto
Quantas rosas colhi ao vago da estrada
Antes de saber que foste tu a rosa escolhida...

DEPOIMENTO

Poeta assim como eu. Mas que com seus acordes derramas muito mais que um poema:
Cada dedo teu, irmão, é um canário amarrado ao fio de liberdade das cordas deste um teu violão.
E tu mesmo sabes destes teus anseios. Sabes tu da natureza que canta em ti assim como canta no crepitar das copas das árvores e ruflar de asas de algum teu semelhante...
E eu sei da vida de meus poemas, meu poeta, que é deitada ao chão feito semente de sangue, e digo, das coisas dessa minha acontecência, que és - tu e teus acordes - o barco de expressividade de algum meu poema.

O HOMEM DO SÉCULO

Olho o homem na estrada
O homem que vive o ideal
Que pisa, sob os pés, o nada
Estendendo títulos ao varal

Olho esse homem vencido
Que mente por não se ver
Que bendiz o não vivido
Que morre ao não morrer

Ei-lo! O homem correto
Com seus passos de arame
Vendendo seu corpo ereto
Tal a puta que paga o vexame

Ei-lo!Ei-lo! De máscara!
Todo circunspecto
Malhando em sua farsa
Outro filme antiestético!

Olho este homem moderno
Cruzando a dita via
Munido de seu caderno
E de um si de outro dia

Este é o homem do século!
É este o homem do código!
Eis o homem tubérculo

DE QUEM SÓ ESPERA

Há, às vezes, nesses dias chuvosos, uma espécie de mal-estar. Acontece. Esperar torna-se um vício. Nada toca. Nada se deixa tocar. De perceptível só o som da combustão de carros a motor que se chega sempre à porta, nesses dias chuvosos.A verdade é que a vida parou como um romance que perdera o enredo, e os esforças limitam-se ao ato de negar, não existe, pois, a possibilidade, nesses dias chuvosos. Tudo é tratado como estranho; Ouço vozes no cômodo ao lado: essas não me querem dizer nada. A vida parou. Por um instante tive a mesma impressão...