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PEQUENO MANIFESTO CONTRA O “EU”

Tenho esse nome Caio para matar o meu Thiago. Sim, de vez que a arte é antes exercício de generosidade, e o poeta, que tantas vezes se engana, precisa se alimentar de vários nomes.
Sim, porque nenhum poema é de fato seu, e a escrita, esse ato de egoísmo, padece (e deve) na generosidade da estrofe parida.

POEMA DE MOÇA E RETRATO

Falta inda uma parte que ficou,
Talvez, de fora desse teu retrato
É uma vontade que ora te dou
Como dor que, sem pátria, mistificou

Um peito de amores que mesmo
Não sei. Uma mulher nascida
Da ciranda cotidiana do ermo
E que se reinventa, à própria lida,

Navegante profunda do mar aedo
É sempre tua, moça do retrato,
A palavra minha que nunca terei
Mas que teimo neste contrarelato

Achando que um dia enfim tocarei
A dispersa dor, tímida flor de teu tato
A diversa infinitude, lar do teu termo
Resgatando de mim o poema secreto!

O HOMEM DO SÉCULO

Olho o homem na estrada
O homem que vive o ideal
Que pisa, sob os pés, o nada
Estendendo títulos ao varal

Olho esse homem vencido
Que mente por não se ver
Que bendiz o não vivido
Que morre ao não morrer

Ei-lo! O homem correto
Com seus passos de arame
Vendendo seu corpo ereto
Tal a puta que paga o vexame

Ei-lo!Ei-lo! De máscara!
Todo circunspecto
Malhando em sua farsa
Outro filme antiestético!

Olho este homem moderno
Cruzando a dita via
Munido de seu caderno
E de um si de outro dia

Este é o homem do século!
É este o homem do código!
Eis o homem tubérculo

HAVER DE UM QUERER

Há a morte como coisa que eu quisesse, tal é para mim o absurdo de me ir pouco mais a cada manhã, qual o trago que toca-me a libido, qual o xadrez que devora-me a rainha. Há a solidão no solstício que me vai tocar de novo e de novo – uma vez mais a cada manhã. Há solidão que me é o perigo, e ao estar-me só eu desenho versos como coisas de que nem sei o nome.