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Estrofes

DORA MOON

Com mãos para o mundo, andávamos calados.
Os lábios já, de nós, gaguejavam a sede antiga:
Tínhamos vida, Dora Moon, e a primavera não morria.
Bastávamos e respirávamos algum lugar de nossa fuga.
Tínhamos pele, eu levava alguns mortos,
Junto, entre, um par furado de velhos sapatos.
Ah! também um desejo dos olhos nos olhos teus.

)Feiuras e risos deliquenciais, numa antiga esquina de nossa memória(
Nossa filosofia era o desejo, e tu me estendias os braços
Quando eu pregava no teu sono a nervura daquelas asas.

ERA ISSO

DO AMOR DE ONTEM

Como fosse aquele retrato todo o tempo que passamos juntos
E inda a expressão mais viva da amizade que te guardo
Como dois estranhos caminhos que se cruzam
No caminhar de outros pés pela vez derradeira na vida
E porque todos os caminhos são breves em todas as vidas
Talvez por isto ou por qualquer motivo outro que se desconheça,
Talvez por isto te tenha em mim, secretamente, na falta que te tem teus amores,
E que, ao te ter, te possa encontrar dentre todos os afetos e envolver-te a ti minha fictícia
Melancolia...

SÍNCOPE

Ontem veio a síncope - Palmo olhar gasto
Dalguma velha hora. E era tudo que queria
A noite que, fria, esqueceu-se em retrato.
Homens circulavam pela dor que me erguia

Outra coroa de dez mil homens sepultados!
Era vasta a hora de outro mesmo vasto dia
Em que esposas e maridos, por fios costurados,
Escondiam da pele minha um riso que não se ria

Tudo me era. E eu, em tudo, uma voz preclara
Que se estendia por entre vazios agudos.
E a imensa bobeira de esticar a face, dura e rara,

Para além da imensa janela - em que sisudos
Postes iluminavam, dos flagelos, a triste cama -

PEQUENO MANIFESTO CONTRA O “EU”

Tenho esse nome Caio para matar o meu Thiago. Sim, de vez que a arte é antes exercício de generosidade, e o poeta, que tantas vezes se engana, precisa se alimentar de vários nomes.
Sim, porque nenhum poema é de fato seu, e a escrita, esse ato de egoísmo, padece (e deve) na generosidade da estrofe parida.