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Amizade

PANO MOFADO

Agora, no meu coração, queima Dora.
Com sua magreza de pulso extremado.
Ontem os mares pareciam perdidos.
Ian e a rua: dois rumando para o nada.
Pasteis chineses e breves curativos
(A minha presença não trouxe nada).
Mas agora Dora queima em meu peito:
Todas as angústias serão inventadas!

SERENDIPITE

Sol chato na face. Uma tarde em nós.
Nenhuma promessa a ser cumprida
como o alívio da vida que escolhemos.
O dia para nós, naquela conversa
em que tentávamos mirar alguma sombra,
quem sabe?, de um pensamento, descrevia
em nossas órbitas um velho desejo de homem.

E quando sentíamos solidão
era exatamente estarmos suspensos
pelas cordas sem lei de algum instrumento
que mal tocamos e que hoje, sabemos, jaz esquecido,
sem possibilidade sequer de uma corda,
mais a poeira de passados e pessoas que atravessamos
e um uivo suprimido de alguma nossa expressão.

PARECENÇA

Conheço-te da brisa.
Do sereno oblíquo da manhã.
Conheço-te da vida,
Te conheço porque conheço não

Por terdes dedos de apontar estrelas
E pés de riscar o chão
Por isso eu te conheço:
A tarde deita em nós

Um jeito seu. O tempo continua.
As águas serpeiam no ventre do rio;
Homens vagueiam, no cerne, o nada.
Por isso eu te conheço

- Que de tão estranha lembras
um nome que tive -
Posto que sejas natureza
Por isso eu te conheço

Por possuirdes em teus traços
A fauna das velhas auroras,
Os lírios todos do campo,
Os molares dos teus filhos e netos.

QUANDO EU ME FOR EMBORA

Quando eu me for embora, Maria, não
Te tranques em teu coração,
Nem te bastes às minhas promessas.
Tampouco te bastes nesta dor de paixão.

Quando eu me for, Maria, embora
Deixar-te-ei os dias, deixar-te-ei auroras
Por isto, meu amor, Maria, não te tranques
Em teu coração quando enfim chegar-me a hora...

Lembra-te só das coisas miúdas
(Quão triste foi a lua deste nosso amor)
Verás então – não menos absurdas –
Pequenas contas de fé que em ti este poeta regou

Lembra-te apenas das tardes serenas,
Dos beijos e risos, das noites em flor
Saberás então – em dores amenas –